A LIDERANÇA ALÉM DO BEM E DO MAL: A LIDERANÇA SITUACIONAL

por Flávio Paim Rodrigues
O mundo dos negócios, tal como o conhecemos, tem sido constantemente redefinido por uma série de fatores: a velocidade da informação, a imprevisibilidade do mercado, a perene necessidade de inovação e, acima de tudo, a complexidade das relações humanas no ambiente corporativo. Nesse cenário, o papel do líder — e sua capacidade de influenciar, guiar e inspirar suas equipes — tornou-se o principal ativo para o sucesso de qualquer organização.
Por décadas, buscou-se incansavelmente a fórmula mágica, o “estilo” de liderança ideal. Discutiu-se fervorosamente se o líder deveria ser autoritário, democrático, liberal, centralizador ou visionário. Inúmeros modelos teóricos foram criados, cada um buscando emular as características dos grandes líderes da história. No entanto, o que a prática tem demonstrado, com uma certeza quase absoluta, é que não existe um estilo de liderança único, infalível e “melhor” para todas as situações. A rigidez do modelo de comando e controle, por exemplo, tão eficaz em contextos de alta previsibilidade, tornou-se um freio para a criatividade e a agilidade que o mercado moderno exige.
É nesse ponto que o conceito de Liderança Situacional se apresenta como uma resposta pragmática e, ouso dizer, indispensável. Não se trata de uma nova teoria, mas de uma filosofia de ação que reconhece que a eficácia da liderança não está no líder em si, mas na sua habilidade de se adaptar ao contexto. A liderança eficaz é aquela que diagnostica a realidade de sua equipe, de sua tarefa e de seu ambiente para, então, escolher a abordagem mais apropriada.
O Diagnóstico como Habilidade Essencial
O coração da Liderança Situacional é a capacidade de diagnóstico. O líder situacional é, antes de tudo, um analista da realidade. Ele não lidera por intuição ou por uma preferência pessoal, mas por uma análise criteriosa. Esse diagnóstico se baseia em três pilares fundamentais:
- O liderado e sua maturidade: A maturidade não se refere à idade, mas à combinação de competência (capacidade de fazer, conhecimento) e comprometimento (motivação, confiança, atitude). Um funcionário recém-chegado pode ter um alto grau de comprometimento, mas baixa competência. Já um veterano pode ter alta competência, mas um baixo comprometimento em função da rotina ou de uma desmotivação momentânea.
- A tarefa: A natureza da tarefa a ser executada é crucial. Ela é complexa ou simples? Exige criatividade ou é puramente operacional? É urgente ou há tempo para experimentação?
- O contexto: O ambiente organizacional, a cultura da empresa, a pressão do mercado e a crise (ou ausência dela) definem o cenário em que a liderança será exercida.
Da Teoria à Prática: Os Estilos de Liderança à Disposição
Uma vez feito o diagnóstico, o líder situacional deve ter à sua disposição um repertório de estilos de liderança para escolher. Nesse ponto, os modelos de Hersey-Blanchard e os estilos de Daniel Goleman se complementam de forma brilhante, fornecendo um guia prático para a ação.
Hersey-Blanchard nos oferece quatro estilos baseados na combinação de comportamento de tarefa (direcionamento) e comportamento de relacionamento (apoio):
- Direcionador (S1): Alto foco em tarefa, baixo foco em relacionamento. Ideal para liderar um indivíduo com baixa competência e alto comprometimento (o novato entusiasmado). O líder precisa ser claro, dar instruções passo a passo e supervisionar de perto.
- Orientador (S2): Alto foco em tarefa e alto foco em relacionamento. Para o indivíduo que tem alguma competência, mas perdeu o comprometimento. O líder precisa guiar a tarefa, mas também apoiar, ouvir e motivar.
- Apoiador (S3): Baixo foco em tarefa e alto foco em relacionamento. Perfeito para o indivíduo que tem alta competência, mas pouca confiança em si mesmo. O líder empodera, participa das decisões e dá o suporte necessário para que o liderado ganhe autonomia.
- Delegador (S4): Baixo foco em tarefa e baixo foco em relacionamento. A abordagem ideal para o profissional com alta competência e alto comprometimento. O líder apenas delega e confia, deixando que o liderado execute com total autonomia.
Esses estilos encontram seu paralelo e sua riqueza na inteligência emocional do líder, tema tão bem explorado por Daniel Goleman. O líder situacional pode transitar entre os seis estilos de Goleman, utilizando-os como ferramentas para o diagnóstico:
- O estilo Coercitivo pode ser usado no curto prazo para dar direção em uma crise (Cenário D).
- O Autoritativo (Visionário) é essencial para inspirar e alinhar a equipe a um objetivo comum (Cenário A).
- O Afiliativo é a ferramenta ideal para reconstruir a harmonia e o moral de uma equipe (Cenário C).
- O Democrático envolve a equipe e é usado para colher ideias e tomar decisões em conjunto.
- O Modelador (Exigente) é empregado quando o líder precisa ser o exemplo de excelência e espera um padrão alto de sua equipe.
- O estilo Treinador/Coaching é o que de fato desenvolve as pessoas, preparando-as para atingir um estágio superior de maturidade e independência (Cenário B).
A Inteligência Emocional como Base
Vale destacar, conforme a lição de Goleman, que a capacidade de usar esses estilos está intrinsecamente ligada à inteligência emocional do líder, a partir de sua correta compreensão em relação aos cinco componentes da inteligência emocional, apresentados por Daniel Goleman. O líder precisa de autoconsciência para entender suas próprias tendências, de autocontrole para não reagir impulsivamente, de empatia para compreender a situação dos outros, de habilidade social para se comunicar de forma eficaz, e de motivação para continuar se aprimorando.
Em última análise, a Liderança Situacional transcende a busca por um manual único. Ela é uma postura de flexibilidade, de consciência e de responsabilidade. É a compreensão de que o líder não está ali para ditar regras, mas para servir à equipe, fornecendo o que ela precisa naquele momento específico para prosperar. É, no final das contas, o caminho para uma gestão mais humana, adaptável e, por consequência, mais competitiva.



