O que esperar do 2º trimestre de 2026 no Rio Grande do Sul

Empresários não sofrem por falta de informação. Sofrem por não saber o que fazer com ela.
Às vésperas do segundo trimestre de 2026, o cenário do Rio Grande do Sul traz oportunidades reais — mas também riscos relevantes para quem não estiver preparado. A seguir, uma leitura direta e prática do que esperar — e, principalmente, como se posicionar.
O cenário no Brasil: crescimento seletivo e custo de capital
O pano de fundo macroeconômico brasileiro para 2026 é de um crescimento moderado, porém seletivo. A expectativa do mercado aponta para um avanço do PIB nacional patinando entre 1,6% e 2%. A inflação dá sinais de controle, mas sua resiliência mantém a taxa Selic estacionada em patamares de dois dígitos. Esse custo de capital elevado trava o crédito e inibe uma expansão agressiva do consumo financiado em todo o país. É um cenário onde não há espaço para amadorismo: quem executa com eficiência cresce; quem depende de dinheiro barato do mercado, sofre.
O Rio Grande do Sul como locomotiva do PIB
É exatamente nesse contraste que o Rio Grande do Sul se destaca. Após as perdas severas impostas pelas anomalias climáticas dos últimos anos, o estado consolida sua recuperação de forma isolada no país. As projeções confirmam o otimismo técnico: o relatório Resenha Regional do Banco do Brasil projeta uma alta expressiva de 4,6% para a economia gaúcha. Em paralelo, a Federasul trabalha com um avanço de 3,02%, e a FIERGS (Federação das Indústrias do Estado do RS) projeta alta de 2,9%. As projeções variam conforme a fonte e metodologia, mas convergem para um crescimento acima da média nacional, indicando crescimento acima da média nacional em diferentes cenários.
Imagem do interior do Rio Grande do Sul, que deverá registrar o maior crescimento do ano no Brasil (foto do autor).
Agropecuária: o choque de realidade e o paradoxo das margens
O grande vetor desse salto econômico é o campo, mas o cenário exige uma leitura madura dos números. Inicialmente, o mercado precificava uma recuperação absoluta. Contudo, os dados oficiais mais recentes trazem um choque de realidade: relatórios da Emater/RS (com dados apresentados na Expodireto 2026, ainda em revisão) já apontam para uma redução de 11% no volume esperado da safra, reflexo das instabilidades climáticas recentes. O Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) do IBGE, com base em fevereiro, corrobora esse cenário de cautela, especialmente em relação à soja.
Esse ajuste não invalida a projeção de alta do PIB gaúcho. O que muda é a qualidade desse crescimento: o volume absoluto retirado do campo ainda é massivo e será o grande injetor de liquidez no estado, mas a rentabilidade do produtor será menor do que o mercado antecipava.
O perigo real está na combinação dessa quebra física com um alerta financeiro severo: o preço das commodities. Com menos sacas colhidas e cotações internacionais pressionando para baixo, as margens estão espremidas. O dinheiro vai circular fortemente no segundo trimestre, mas a rentabilidade final na fazenda está achatada. O agronegócio usará essa safra para quitar passivos e rolar dívidas. Na prática, isso exige das empresas fornecedoras do setor uma mudança clara de postura: vender bem não será suficiente — será necessário cobrar bem e gerir o caixa com extremo rigor.

O campo segue como protagonista em 2026. Foto do autor
O desempenho dos setores: indústria, serviços, construção e varejo
Conforme o detalhamento das projeções macroeconômicas mais recentes — com destaque para o relatório Resenha Regional do Banco do Brasil e o acompanhamento das federações estaduais —, a entrada da receita agrícola entre abril e junho gera um efeito cascata imediato que reconfigura a economia urbana. Os números esperados para os principais setores refletem exatamente essa dinâmica:

A indústria é um dos setores que deve demonstrar crescimento no trimestre gaúcho. Foto do autor.
- A expansão da indústria (+1,3%): A indústria de transformação ganha fôlego puxada pela demanda interna de reposição, mas opera com margens espremidas. O foco imperativo aqui é a eficiência: projetos de payback curto e eliminação de desperdícios no layout produtivo.
- O avanço dos serviços (+4,3%): O setor de serviços tem projeção de crescer o dobro da média nacional. Esse avanço é impulsionado fortemente pela logística de escoamento da safra, pela adoção de tecnologia corporativa e serviços de apoio. O dinheiro que nasce no campo irriga rapidamente a cadeia de prestação de serviços nas cidades-polo e no interior do estado.
- O papel estratégico da construção civil: A construção civil ganha uma dinâmica peculiar neste trimestre. Com a Selic alta travando os financiamentos habitacionais tradicionais de longo prazo, o cliente que depende de crédito bancário sai de cena. No entanto, o imóvel volta a ser o grande “porto seguro” para o produtor rural e o investidor capitalizado, que desejam proteger o lucro da safra contra as incertezas de um ano eleitoral. Nesse cenário, há uma tendência de migração de foco para obras com recursos próprios, reformas e investimentos à vista.
- O protagonismo e o risco no varejo: O comércio é o principal capturador da injeção de liquidez regional. A oportunidade é clara para aumentar o ticket médio e vender bens de maior valor agregado para o público que está capitalizado. A ameaça, por outro lado, é o risco de aumento da inadimplência. Com o crédito caro e o consumidor médio ainda estrangulado, vender a prazo sem um score de crédito rigoroso é um risco letal. Vencerá o varejo que focar em inteligência de compras, alto giro de estoque e gestão austera de caixa. Promoção sem estratégia e venda sem controle de crédito tendem a destruir margem neste cenário
Geopolítica e riscos: o peso do conflito no Irã
Ignorar o painel externo é um erro estratégico. A recente escalada do conflito no Irã e a tensão contínua no Oriente Médio afetam diretamente o RS. A alta nos preços do petróleo encarece o frete (penalizando nosso polo logístico) e pressiona o dólar.
Para o empresário que importa insumos ou depende de frete internacional, isso exige ação concreta agora:
- Revisar contratos com cláusulas de reajuste atreladas à variação cambial
- Antecipar compras de fertilizantes e insumos antes de picos sazonais
- Construir colchão de caixa com capacidade de absorver volatilidade de 60 a 90 dias
Cenário externo instável não é desculpa para resultado ruim — é variável que precisa entrar no planejamento
Pessoas e Governança: o desafio da NR-1 em maio
A gestão de pessoas estará no centro da estratégia no segundo trimestre. Foto do autor
Para além do cenário financeiro, o segundo trimestre traz um desafio operacional crítico. As empresas precisam correr contra o relógio para a adequação à nova redação da Norma Regulamentadora 1 (NR-1), que entra em vigor em maio de 2026.
As exigências aprofundadas sobre o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) não são apenas burocracia, o descumprimento resultará em multas pesadas e risco de paralisação de atividades.
Para adequação efetiva, três frentes precisam ser endereçadas:
- Revisão e atualização do PGR com identificação dos riscos psicossociais
- Capacitação das lideranças intermediárias sobre as novas exigências
- Documentação e registro das ações preventivas com rastreabilidade
Adequar processos e gerir pessoas de forma profissional deixou de ser diferencial — passou a ser risco jurídico direto ao negócio. Empresas que trataram isso como pauta secundária vão descobrir na prática o que significa crescer com passivo trabalhista descoberto.
A hora da execução: crescimento sem estrutura é armadilha
O segundo trimestre de 2026 vai colocar dinheiro em circulação no Rio Grande do Sul. Isso não é promessa — é dado de conjuntura.
Mas existe uma pergunta que poucos empresários fazem antes de celebrar o cenário favorável: sua operação está preparada para transformar crescimento em lucro — ou apenas em volume de trabalho?
Em um ambiente de juros altos, margens comprimidas na origem e maior risco operacional, crescer sem estrutura não é neutro. É prejudicial. Empresa que aumenta faturamento sem controle de crédito acumula inadimplência. Empresa que contrata sem processo aumenta custo sem produtividade. Empresa que expande sem caixa vira refém do banco.
A diferença entre quem vai prosperar e quem vai apenas trabalhar mais estará em três fatores — e só em três:
- Clareza de estratégia: saber onde não entrar é tão importante quanto saber onde crescer
- Disciplina de execução: o plano que não é acompanhado semana a semana vira intenção
- Controle rigoroso de indicadores: margem, giro, prazo médio de recebimento e inadimplência não são relatórios — são sinais vitais
O cenário está dado. Quem vai aproveitá-lo — ou desperdiçá-lo — é decisão de gestão. Não de mercado.
Flávio Paim Rodrigues (CRA/RS 41.969) é Administrador e Consultor Empresarial com mais de 25 anos de vivência executiva. Atuando em consultoria estratégica desde 2012, é especialista em Governança Corporativa, Gestão de Riscos, Compliance e Inteligência Artificial para Negócios. Ajuda empresas a estruturarem crescimento com previsibilidade de caixa e segurança jurídica.
NOTA: as análises e projeções apresentadas neste artigo são baseadas em dados de mercado disponíveis até o momento e em interpretações do autor, podendo sofrer alterações conforme a evolução do cenário econômico.


